26 de junho de 2011

Um olhar sobre o ciclo de vida e morte (em vida)

A brincadeira no trilho do trem torna-se pretexto para Willie e Tom, duas crianças na corda-bamba da adolescência, conhecerem-se de fato. A reflexão poética sugerida pela peça sobre o ciclo de vida e morte (em vida) é conduzida pelo “desenho da imaginação” das personagens, em jogo com os espaços percorridos ao longo do diálogo.

É o que aguarda quem for assistir à Esta Propriedade Está Condenada, peça de Tennessee Williams, em montagem instigante produzida pelos alunos do Curso de Artes Cênicas da ECA/USP, dias 29 e 30/jun. (4.a e 5.a), às 15h. A apresentação desse trabalho encerra o curso de Direção II, coordenado por Cibele Forjaz.

Esta Propriedade Está Condenada, de Tennessee Williams
atuação Marcus Garcia e Marina Di Giacomo; sonoplastia Pedro Oliveira; iluminação Thabata Garcia; direção Olívia de Castro;
orientação Cibele Forjaz
29 e 30/jun. (4.a e 5.a), às 15h; e 2/jul. (sáb.), às 12h
entrada gratuita; CAC-ECA-USP
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 25 – Cidade Universitária, São Paulo

foto: Óli de Castro

25 de junho de 2011

São Paulo entre rios

No frenesi diário da gigantesca São Paulo, ninguém mais nota os rios que lhe deram origem. A não ser ao transbordarem, no período de chuvas, ou quando os odores do lixo neles depositado nos chegam. Em sua maioria, esses leitos de água hoje estão canalizados e sobre eles correm as principais avenidas da cidade.

O interessante Entre Rios, doc disponível na web, conta justamente essa trajetória conflitiva da metrópole com os seus rios. Razão de ser da São Paulo de Piratininga, o rio Tamanduateí e o ribeirão Anhangabaú logo representaram barreira ao crescimento. A construção do viaduto do Chá foi o primeiro marco de superação do impedimento representado por esses leitos, ligando o centro velho aos novos loteamentos a oeste da cidade, destinados à emergente elite cafeeira. Na década de 20 as duas áreas são ocupadas por parques: o do Anhangabaú, sobre o ribeirão já canalizado e aterrado, e o Parque D. Pedro II, às margens do Tamanduateí.

Mais tarde foram o rio Pinheiros e o Tietê a se colocarem como obstáculo. Surgiriam justificativas sanitaristas para ocupar e explorar urbanisticamente seus leitos, de várzeas com inundação periódica. Entre Rios registra ainda os grandes projetos públicos em estímulo à expansão urbana. E as razões inevitáveis para, a cada período de chuvas, as águas contidas artificialmente reclamarem de forma destrutiva suas margens originais.

O doc foi realizado pelos alunos Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini, em 2009, como trabalho de conclusão de curso em bacharelado em audiovisual no SENAC-SP, sob a coordenação de Nanci Barbosa e Flavio Brito e orientação de pesquisa de Helena Werneck. Contou ainda com a colaboração de uma equipe considerável, em animação, câmera, trilha sonora e edição de som.

Entre Rios, de Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini; SENAC-SP, 2009, 25 min., dir.: Caio Silva Ferraz; prod.: Joana Scarpelini.

24 de junho de 2011

Pesca artesanal de tainhas em exposição fotográfica

A fotógrafa gaúcha Mara Rejane Freire, há anos radicada na bela capital catarinense, inaugura mais uma exposição de seus instigantes trabalhos. “Tainhas: a pesca artesanal de beira de praia” será aberta dia 28/jun. (terça), às 19h30, no Floripa Shopping (Rod. SC 401, 3.116, Saco Grande – Florianópolis-SC). Os trabalhos ficarão expostos ao público até 20/jul.

Também publicitária, Mara já se definiu como “uma placa fotográfica prolixamente impressionável”. Ela é a criadora do Grupo Fotomotriz, em 2006, para estudos e práticas fotográficas. As turmas aí formadas montam saídas em Florianópolis e no seu entorno para exercícios fotográficos, cujos resultados, além de veiculação pela web (cf. os blogs), costumam ganhar exposição própria.

Confira: http://fotomotriz.blogspot.com e http://diariosdefotomotriz.blogspot.com/

15 de junho de 2011

Quino e o extremo do perfeccionismo

...ou a obtusidade da obediência.

7 de junho de 2011

'Ilogicamente' de Newman Simões tem tarde de autógrafos

O livro de Newman Ribeiro Simões, Ilogicamente. Poemas, publicação da Jacintha Editores, continua dando o merecido ibope. Agora o autor prepara uma tarde de autógrafos em Piracicaba, cidade paulista onde reside e trabalha. Será na próxima 6.a (10), às 18h, na nova Livraria Nobel (Rua Moraes Barros, ao lado do Banco Luso Brasileiro).

Enquanto isso, o livro acaba de ganhar do escritor, radialista e professor de literatura Alexandre Bragion uma resenha de particular qualidade, “Newman Simões: um poeta de ‘primeira água’”, postada no periódico online Diário do Engenho, espaço virtual que tem se mostrado muito dinâmico no trato da cultura piracicabana e, assim, merecedor de acompanhamento.

Segundo Bragion, em Ilogicamente o curso úmido das lembranças de Newman “flutua sob a forma de jogos de linguagem e de sobreposições de palavras que correm rentes aos rios da prosa contemporânea da literatura brasileira. Imersa numa poesia até certo ponto raiz – que, se guarda em si o tempo das cidades do interior, tem também o seu devido ar cosmopolita –, ‘a ilogicamente’ de Newman apresenta-se mergulhada também em inúmeras referências poéticas que, por sua vez, vão ditando, em forma de epígrafe, o ritmo das ondas líricas do livro”.

Taí uma ótima maneira de travar contato com o Diário do Engenho: pela escrita cada dia mais afinada de Alexandre Bragion, nesta sua mais recente resenha literária, agora sobre o Ilogicamente. Fica a dica: basta clicar aqui.

Ilogicamente. Poemas, de Newman Ribeiro Simões
Pref.: Jorge de Albuquerque Vieira; 107p.; 21 cm; R$ 25,00; ISBN 978-85-60677-08-5; Jacintha Editores, 2010

13 de maio de 2011

Herzog de fato é o que são os filmes dele

Werner Herzog, o aclamado diretor do Novo Cinema Alemão, será objeto de rica programação do Goethe-Institut São Paulo. A mostra ‘Sou o que são meus filmes’ (16 a 21 de maio) abordará o Herzog dos documentários, menos conhecidos do grande público, com a projeção de 20 filmes agrupados em cinco temáticas: ‘Sobre Werner Herzog’, ‘Criação e apocalipse’, ‘O início e o fim da linguagem’, ‘Guerreiro e perpetrador’ e ‘Decolagem e queda’.

Esses documentários foram produzidos entre 1965 e 2005, abrangendo o seu trabalho de estreia Hércules (1965), Balada de um Pequeno Soldado (1984) e, entre os mais recentes, O Diamante Branco (2004) e Além do Azul Selvagem (2005). Todos eles com legenda em português.

O próprio Herzog, cineasta de obras como Aguirre - a Cólera dos Deuses, Nosferatu - o Fantasma da Noite e Fitzcarraldo, participará da abertura da mostra (16/maio, às 19h), em conversa intermediada pelo o jornalista Eduardo Simões, antecedendo a projeção de Sou o que são Meus Filmes (parte 1). Para este dia, será necessário retirar senha com 1 hora de antecedência.

Mostra ‘Sou o que são meus filmes’: 16-21/maio/2011; Goethe-Institut São Paulo; Rua Lisboa, 974 – Pinheiros/São Paulo; diversos horários; entrada franca.
Acesse aqui a programação completa.

10 de maio de 2011

'Esta Propriedade Está Condenada'

Abertura de processo de Esta Propriedade Está Condenada, de Tennessee Williams, no curso Direção II, de Cibele Forjaz, no CAC-ECA/USP.

Direção: Olívia de Castro
Atuação: Marcus Vinícius Garcia e Marina Di Giacomo
Sonoplastia: Pedro Oliveira

É conferir
!

5 de maio de 2011

Ex-Libris: livro de quem

A expressão latina ex libris significa literalmente dos livros, a indicar ‘livros de’, ‘pertencentes a’. É empregada como verdadeiro título de propriedade de um livro por uma pessoa ou instituição, ao mesmo tempo em que expressa a personalidade daquele que o possui. Para tanto, além da própria composição do ‘selo’ que o sustenta, associa-se a ele palavras ou expressões, como divisa, vinheta ou emblema, muitas vezes em latim.
.,..O uso dessas etiquetas coladas ou gravadas na primeira página interior para identificar livros remonta à época da invenção da tipografia, na Alemanha, por volta de 1450. O primeiro exemplo de ex-libris teria sido de Johannes Knabensberg, também conhecido como Hans Igler (João Ouriço), gravado em madeira por W.L. Schuberg, com o perfil de um ouriço comendo flores silvestres, como também os de Giorgis de Podebrady (1455) e o de Hildebrand Brandenburg (1470).
.,..Em nosso país, Manoel de Abreu Guimarães, provedor da Santa Casa de Sabará no século XVIII e possuidor de vasta biblioteca, é tido como o primeiro brasileiro a ter um ex-libris. Mas há quem indique ser Padre José Correia da Silva, também morador de Sabará nesse período, o dono do ex-libris mais antigo no Brasil.
....O fato é que se trata de uma interessantíssima tradição, repleta de ‘belas histórias de arte, de vida e de amor aos livros’. Aliás, é como se intitula a introdução, assinada por Dorothée de Bruchard, da ótima publicação Ex-Libris, organizada por Plinio Martins Filho (Ateliê Editorial, 2008, 188p.), cuja leitura fica aqui indicada e de onde reproduzimos as imagens que ilustram esta postagem. . De Alvarus (Álvaro Cotrim, caricaturista carioca), com desenho de sua autoria (p. 140); . De Diva Bei, com desenho de Elisário Bahiana, em zincogravura (p. 128); . De Sylvio Bevilacqua (p. 140)

25 de abril de 2011

Filosofia da USP homenageia Claude Lefort

Claude Lefort, um dos maiores pensadores da política e do totalitarismo do nosso tempo, receberá homenagem do Departamento de Filosofia da USP nesta quinta-feira (28), a partir das 14h30. Falecido em outubro do ano passado aos 83 anos de idade, o filósofo francês foi autor de obras como A Invenção Democrática, nas quais defende que, numa sociedade democrática, o povo no poder é um princípio simbólico, não real, e, mais do que isso, irrealizável, já que a “precipitação do simbólico no real” causaria a sua perda. Ou seja, trata-se de um pensamento nada convencional, e ainda bastante desconcertante.

O peso dos nomes que comporão esta homenagem a Lefort dá ideia da relevância do evento. Entre eles estará o sociólogo do direito e ensaísta Luciano Oliveira, autor de O Enigma da Democracia. O pensamento de Claude Lefort (Jacintha Editores, 2010). Tendo sido aluno do pensador francês, Luciano esmiúça nesse livro as concepções lefortianas, de fundamental importância como crítica radical ao totalitarismo. Marilena Chaui, também ex-aluna de Lefort, diz ter aprendido o exato sentido de filosofia como diálogo e combate justamente com o mestre francês: o político como lógica do poder, não como pura relação de força, e o sentido da democracia como conflito legítimo, como indeterminação e criação temporal, isto é, “como invenção histórica e criação de direitos, e como recusa do poder incorporado, isto é, da identidade entre o saber, a lei e o poder”.

Local: Departamento de Filosofia da USP: 28/abr./2011, sala 14, Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Cidade Universitária/São Paulo. Inscrições e informações: www.fflch.usp.br/cf

Programação

14h30 Conferência de abertura: José Arthur Giannotti (USP)
15h30 Mesa redonda: Luciano Oliveira (UFPE); Eliana de Melo e Souza (Unesp); Sérgio Cardoso (USP)
17h30 Mesa redonda: Newton Bignotto (UFMG); Adauto Novaes (Arte e Pensamento); Olgária Chain Ferés Mattos (USP)
19h30 Conferência de encerramento: Marilena de Souza Chaui (USP)

O Enigma da Democracia. O pensamento de Claude Lefort, de Luciano Oliveira. Pref.: Marilena Chaui; entrev. com o autor: Nuno Coimbra Mesquita. R$ 30,00; 128p.; 21 cm; ISBN 978-85-60677-12-2; Jacintha Editores, 2010

12 de abril de 2011

Casa onde Guimarães Rosa morou em Cordisburgo tem visita virtual


O museu da casa onde o escritor Guimarães Rosa (1908-1967) nasceu e passou parte da sua infância, na pequena Cordisburgo, no interior mineiro, agora pode ser visitado virtualmente. Pelo site Museus Virtuais dá para percorrer tanto o interior da residência, com seus cômodos e objetos de época, como também as ruas da ainda pacata cidade, localizada a 116 km ao norte de Belo Horizonte, cuja região muito serviu de matéria-prima à literatura de Rosa.

Do acervo do museu constam elementos de sua vida profissional como médico e diplomata, e ainda de peças de vestuário, utensílios domésticos, mobiliário e fragmentos do universo rural descrito em seus livros, como objetos de montaria e de atividade pecuária. Há ainda cerca de 700 documentos textuais, entre os quais alguns de caráter pessoal (certidões, correspondência recebida e emitida, documentos escolares), discursos, artigos em periódicos e originais manuscritos ou datilografados, como de Tutaméia, última obra de Rosa publicada.

O Projeto Era Virtual, responsável por esse site, reúne acessos virtuais a alguns museus brasileiros, como os Casa de Cora Coralina (GO) e Casa Guignard (MG). Durante a visita, por meio de cliques, pode-se girar a imagem, ampliar detalhes e obter informações sobre peças em exposição. No caso do Museu Casa de Guimarães Rosa, a particularidade fica por conta da participação dos contadores de histórias Miguilim, jovens que, ao clique no sinal de ‘+’ ao lado de suas imagens, narram particularidades do lugar e do seu ilustre morador, autor de obras como Sagarana (1946), Corpo de Baile (1956) e Grande Sertão: Veredas (1956).

Esses jovens narradores são fruto da ação cultural desenvolvida pelo museu e a Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, que forma e manutém o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim: hoje, cerca de 52 jovens, entre 11 e 18 anos, recebem formação permanente em técnicas de narração e sobre a vida e obra de Rosa. Nome dado em homenagem ao menino personagem-título da novela “Manuelzão e Miguilim”, que compõe originalmente Corpo de Baile, eles apresentam o museu tanto na visita virtual como na presencial.

Museu Casa Guimarães Rosa: Rua Padre João, 744 – Cordisburgo (MG); visitação: de 3.a a dom., das 9h às 17h; taxa: R$ 2,00; agend. de visitas: (31) 3715-1425 ou museuguimaraesrosa@cultura.mg.gov.br

4 de abril de 2011

Livro de Tarcísio Bregalda em seu próprio 'itinerau'

Itinerau, de Tarcísio Bregalda

Noite de autógrafos

Dia 9/abr. (sáb.), a partir das 18h
Casa da Cultura de São Bento do Sapucaí / SP
Rua Sargento José Lourenço, 105
(12) 3971-1665


Tarcísio Bregalda é natural de Cruzeiro (SP) e dentista por profissão. Por desassossego, também poeta. Reside e trabalha em São Bento do Sapucaí (SP), próximo a Campos de Jordão, quase divisa com o sul de Minas. É da beleza e da mansidão dessa região montanhosa que, muitas vezes, Tarcísio retira a ambientação de seus versos, que encontram, neste livro, seu itinerau. Trata-se da segunda publicação dele, a anterior, Os Riscos das Margens (São Paulo: ProEditores, 1997), teve apresentação do poeta Manoel de Barros.

‘Passagem para Minas’

A passagem para Minas
tem que ser pela Mantiqueira.
A passagem para Minas tem que ser silenciosa
como lâmina de faca em toucinho de porco
morto no sábado.


Itinerau, de Tarcísio Bregalda #pref.: José de Anchieta (Costa); capa: Billy Gibbons (imagem: Ângelo Milani); 92p.; 21 cm; ISBN 978-85-60677-14-6; R$ 30,00; Jacintha Editores, 2011

31 de março de 2011

Busca de palavras em cinco séculos de livros

Que tal poder checar o emprego de palavras ou expressões nos últimos cinco séculos? Uma ferramenta oferecida pelo Google promove essa façanha. Trata-se do Books Ngram Viewer (www.ngrams.googlelabs.com) programa com capacidade de executar busca por palavra-chave (um ou mais termos) nos 5,2 milhões de livros já digitalizados, constituindo uma fantástica área de pesquisa de 500 bilhões de palavras. Tal é o material disponibilizado em obras em inglês, francês, espanhol, alemão, chinês e russo, publicadas entre os anos de 1500 e 2008.
......Resulta da busca uma linha cronológica que exibe a incidência, nos últimos 500 anos, da aplicação da palavra ou expressões procuradas e ainda um atalho para livros que empreguem os termos indicados. Com isso, é possível identificar, quantitativamente, o uso da linguagem, ideias e conceitos ao longo desse considerável período de tempo, identificando-se, por exemplo, tendências culturais ao longo da história, segundo a forma como foram registradas nos livros.
......O conjunto de informações reunidas com o Google partiu do pesquisador Erez Lieberman Aiden e do acadêmico Jean-Baptiste Michel, ambos da Universidade de Harvard. Eles desenvolveram o projeto de pesquisa para demonstrar o quanto as bases de dados podem transformar nossa compreensão da linguagem, da cultura e do fluxo das ideias. Um exemplo é o referente às palavras women (mulheres) e men (homens). Pouco mencionada na comparação com o emprego de men até o início do século 20, women ganha destaque com o movimento feminista. No final dos anos 1990, women já possui citação mais numerosa do que men em livros. Outro caso depreende-se pelos gráficos, que apontam como o cristianismo, ao longo do século XX, perdeu espaço para outras religiões.

29 de março de 2011

'A Fita Branca', ou o ovo do ovo da serpente

A Fita Branca (Das Weisse Band), filme de Michael Haneke, continua uma ótima indicação do bom cinema europeu, apesar de já ser de 2009. Haneke, responsável pela direção e roteiro, é formado em psicologia, filosofia e teatro pela Universidade de Viena, e suas produções têm como marca o debate da violência e das perversões humanas. Violência Urbana, A Professora de Piano e Caché também tiveram direção dele.

Em A Fita Branca, às vésperas da I Guerra Mundial, estranhos eventos abalam a calma de um vilarejo protestante no norte da Alemanha. Uma corda estendida como armadilha derruba o cavalo do médico do lugar (Rainer Bock), um celeiro pega fogo, duas crianças são sequestradas e torturadas... Os incidentes isolados vão ganhando forma de um cruel ritual de punição, pondo a cidade em pânico. O professor (Christian Friedel) do coro de jovens investiga os acontecimentos em busca do responsável, querendo revelar a perturbadora verdade, ainda que admita não distinguir exatamente o que seja boato ou não. A frieza e a culpa coletivas são narradas por este personagem central, ao longo de um filme em preto e branco de rica fotografia e com enquadramentos primorosos, mesmo em ambientes internos e de planos fechados.

Aquele microcosmo, com seu sistema social rigidamente hierárquico e de enorme intransigência moral, reserva sempre severas punições às crianças e mulheres, sob o domínio inconteste dos adultos homens. Mas o que em público tem aura de justo ou adequado, a quatro paredes revela sua mais pura crueldade. Nesse clima, a notícia do assassinato, em Sarajevo, do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, que desaguará na carnificina da primeira grande guerra, impõe um corte ao silêncio que pauta a coletividade perante os sinistros acontecimentos locais.

Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2009, A Fita Branca (144 min., prod. Áustria, França, Alemanha e Itália) busca retratar o ponto germinal do crime de ódio mais abordado pelo cinema no século 20, o Holocausto. Naquele ambiente social rígido e autoritário, pleno em punição, puritanismo, crueza e disciplina – e que ainda sairia profundamente massacrado pelos vencedores do primeiro conflito bélico mundial –, estava sendo germinado com muito rancor o ovo da nazi serpente a gerar a II Guerra.

26 de março de 2011

Virginia Woolf, sua literatura ainda é de enorme influência

Na manhã de 28 de março de 1941, Virgínia Woolf entrava nas águas gélidas do Rio Ouse (Rodmell, Inglaterra) para, com os bolsos do casaco de pele cheios de pedras, deixar-se afundar, dando fim à sua vida. A escritora inglesa era, já então, um monumento. E, passados exatos 70 anos daquela sexta-feira, o fascínio sobre seus livros mantém-se inconteste. Nos 59 anos em que viveu, Woolf escreveu nove romances (entre eles O Quarto de Jacob, Orlando e As Ondas), três biografias e boa quantidade de contos e obras de não ficção, como o ensaio feminista seminal “Um teto todo seu”. Seus diários preenchem cinco volumes, suas cartas, seis.
......Virginia Woolf nasceu em Londres (1882), filha de um editor, sir Leslie Stephen e, na educação esmerada que recebeu, frequentou desde cedo o mundo literário. Casa-se com Leonard Woolf, com quem funda a Hogarth Press, editora que revelou escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Fez parte do grupo Bloomsbury, composto por intelectuais sofisticados que, após a I Guerra Mundial, investiria contra as tradições literárias, políticas e sociais da era vitoriana.
......Vítima de grave depressão, ela escreve, no bilhete para o marido antes do seu suicídio, que ter “certeza de estar ficando louca novamente”: “Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer.” (...) “Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade.”
A influência dela – No ensaio ‘Em busca da jornada épica das vidas comuns’, o romancista americano Michael Cunningham detém-se sobre Mrs. Dalloway, livro de Virginia Woolf que inspirou o seu As Horas (por sinal o título original de Mrs. Dalloway, trocado por Woolf antes de sua publicação), cuja versão para o cinema deu o Oscar de melhor atriz a Nicole Kidman. Cunningham avalia que, nesta obra-prima de Woolf, ela “esbanja controle, uma qualidade com frequência – às vezes demais – cara à maioria dos romancistas. Ela está testando não só seus poderes, mas os limites do próprio romance. Podemos quase ouvir seus pensamentos na página”.
......O Sábatico, no qual foi publicado esse ensaio, traz ainda uma entrevista com Cunningham (‘É difícil escapar da influência dela’), concedida a Rinaldo Gama. Para completar, que tal ter uma noção da história da romancista inglesa? Para tanto, acesse ‘A trajetória de Virginia Woolf’ e aprecie uma rica retrospectiva de fotos dela.

25 de março de 2011

Abertas as inscrições ao Prêmio Jabuti 2011

A 53.a edição Prêmio Jabuti, tido como a mais importante e ampla premiação da literatura brasileira, está com suas inscrições abertas, se estendendo até 31 de maio. Podem concorrer apenas obras inéditas, publicadas no Brasil entre 1.º de janeiro a 31 de dezembro do ano passado, sendo aberto a editores, escritores, autores independentes, tradutores, ilustradores, produtores gráficos e designers.
......Após a polêmica ocorrida no evento do ano passado, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou uma série de mudanças no regulamento. Entre elas, em 2011 serão 29 categorias, três a mais em relação ao ano passado (Ilustração, Gastronomia e Turismo e Hotelaria). Também o total dos prêmios passou de R$ 123 mil para de R$ 147 mil. O número de laureados é outra inovação: até 2010, o primeiro, segundo e terceiro lugares de cada categoria eram premiados; neste ano terá apenas um livro finalista por categoria. E dentre eles saem os vencedores de Livro do Ano, de ficção e de não ficção, a serem anunciados festivamente na Sala São Paulo, no dia 30 de novembro.
......Acesse aqui a ficha de inscrição ao Jabuti.

23 de março de 2011

Chega ao Brasil o 'talento iluminado' de um jovem escritor

“Sempre me agradou a ideia de não se saber como se escreve um livro. De aprender a escrever com cada um e, ao terminá-lo, ser tomado novamente pela dúvida. Um escritor é diferente de um escrivão. Se sabe perfeitamente como executar seu trabalho, então é um impostor. Leitores não merecem fórmulas, mas assombros. E um autor não pode espantar ninguém se não é primeiro assombrado pela linguagem.”

Anote o nome do autor dessas palavras: Andrés Neuman. Melhor ainda, leia um de seus livros! Como Bariloche (Anagrama, 1999), La Vida en las Ventanas (Espasa, 2002) e Una Vez Argentina (Anagrama, 2003). Certamente você ainda ouvirá falar muito dele. Esse jovem escritor argentino (Buenos Aires, 1977) é um dos convidados da próxima Flip, em julho, e foi elogiado pelo chileno Roberto Bolaño com tendo “um talento iluminado”. Relacionado pela revista britânica Granta entre os 22 melhores narradores jovens em espanhol, Neuman atualmente é colunista da Revista Ñ (jornal Clarín, Argentina) e do suplemento cultural do diário ABC (Espanha).
......Premio de la Crítica, concedido pela Asociación Española de Críticos Literarios no ano passado, Andrés Neuman tem o seu O Viajante do Século, de 2009, traduzido agora no Brasil (Alfaguara, 456p., R$ 55,00, trad.: Maria Paula G. Ribeiro). Dando continuidade ao culto do fantástico, marcante na literatura latinoamericana, Neuman cria nessa obra uma cidade (Wandernburgo), retratando, com suas ruas instáveis, a Europa como um todo. Em tal espaço urbano imaginário, o viajante Hans, em pleno século XIX, se apaixona pela insinuante Sophie. A inspiração vem de Viagem de Inverno, sinfonia de Schubert, para narrar uma história de amor à moda romântica, mas se valendo de termos modernos.
......A respeito desse livro, Maarten Steenmeijer (De Volkskrant, Holanda) assegura: “Por fim a literatura latinoamericana obtém sua mais que esperada novela europeia, com a mesma ambição, erudição e vitalidade de obras como Cem Anos de Solidão [G.G. Marquez] e A Casa Verde [M.V. Llosa]. Neuman não é apenas uma notícia brilhante para América Latina, como também para a literatura europeia”.
......Andrés Neuman mantém um site próprio e o blog Microrréplicas, pelos quais dá para se manter atualizado sobre os rumos literários desse jovem e acessível autor. Confira ainda a entrevista dada por ele a Ubiratan Brasil, no Estadão.

22 de março de 2011

Acervo de Mindlin gera publicação inusitada

Centenas de modelos, entre os 40 mil livros da biblioteca do empresário José Mindlin, doados para compor o acervo da Biblioteca Brasiliana USP (com inauguração prevista para janeiro de 2012), deverão resultar em breve numa publicação um tanto diferente.

É que desde 2010 a fotógrafa Lucia Loeb, neta do bibliófilo, prepara um livro todo feito com mais de cem guardas de livros do acervo de seu avô, informa a jornalista Raquel Cozer, em matéria do jornal O Estado de S.Paulo (19/mar./11). Para quem não sabe, guardas são as páginas duplas, coloridas ou não, coladas entre a 2.a e a 3.a capas e o corpo do livro. Em geral mais grossas do que as páginas do miolo, têm por função reforçar a estrutura de livros maiores. Elas teriam surgido para evitar que a cola usada na capa não sujasse o miolo, mas acabaram se tornando também páginas decorativas.

Lucia Loeb diz ter ficado impressionada com a beleza de várias guardas de livros de Mindlin, como a da 1.a edição de Os Sertões (1902) e outra de Os Lusíadas (datada de 1876). Daí veio a ideia de organizar o livro/CD Páginas de Cortesia, ainda sem data definida para publicação pela Editora do Bispo.

21 de março de 2011

De onde vêm as boas ideias: o acaso favorece as mentes conectadas

Todos nós estamos interessados em ser mais criativos e ter ideias cada vez melhores, bem como as organizações, em serem sempre inovadoras. Mas qual o caminho das pedras para tanto? Trata-se de uma questão particularmente instigante num mundo em que as atividades humanas são por excelência colaborativas, o que levaria a uma primeira pista: com relações produtivas a partir de tal carga de conexões, quanto mais conectado, maior a tendência para ideias verdadeiramente originais.
......É justamente de onde parte o mais novo livro do americano Steven Johnson, tido como um dos maiores pensadores do ciberespaço, buscando identificar De Onde Vêm as Boas Ideias, a ser publicado neste ano pela Zahar. Em Where Good Ideas Come From. The natural history of innovation (2010), o ex-colunista da badalada Wired e editor-chefe e co-fundador da Feed, premiada revista cultural on-line, defende que inovação nasce do caos, e não, como se convenciona imaginar, a partir de insights geniais tirados do nada após momentos de isolamento em contemplação.
......Graduado em semiótica pela Brown University e em literatura inglesa pela Columbia University, aos 41 anos de idade, Johnson vive em Nova Iorque desde 1991. Sua concepção de conectividade da inovação indica que, com frequência, as melhores ideias surgem de redes de outras ideias ou da criação a partir de processos e ideias já inventados. Cabe “pegar emprestada uma ideia de outra pessoa e desenvolvê-la em outro campo, fazer algo completamente novo”. Para ele, ideias revolucionárias não tendem a surgir de surto repentino de inspiração. Elas precisam de tempo de hibernação e acabam surgindo como fruto da fusão de palpites pontuais, originalmente isolados, menores, portanto, do que aquilo no qual resultam. Ótimo exemplo disso é apresentado no filme que narra a criação do Facebook, A Rede Social.
......Para Jonhson, uma meta seria criar sistemas promotores de palpites que se unam e se tornem algo verdadeiramente maior. Ele destaca a importância que, por exemplo, cafés e salões parisienses tiveram para fomentar ideais e inovações que desaguaram no Iluminismo e Modernismo. Esses locais constituíram verdadeiros motores de criatividade, a combinar ideias antes dispersas para ganhar formas novas. Vem da importância de se estimular esses processos, observa ele, a longa história de “defesa de sistemas abertos, seja em universidades, seja em ciência experimental, seja na internet”.
......Frente ao debate atual sobre o que o mundo da web, com seu estilo de vida multifuncional e hirperconectado, estaria causando ao nosso cérebro, Jonhson argumenta que “o grande propulsor da inovação científica e tecnológica sempre foi o aumento histórico na conectividade e na capacidade de buscar outras pessoas com quem possamos trocar ideias e pegar emprestado palpites alheios, combiná-los com nossos próprios palpites e transformá-los em algo novo”. Eis aí, para ele, o motor primordial da criatividade e da inovação nos últimos séculos.
......Nesse sentido, classifica como maravilhoso aquilo trazido pelos recursos tecnológicos nos últimos 15 anos: “temos tantas novas formas de nos conectar e tantas novas formas de buscar e encontrar novas pessoas que possuem aquela peça que faltava para completar a ideia com que estávamos trabalhando ou com alguma informação nova ou incrível que podemos usar para desenvolver ou melhorar as nossas próprias ideias”. Essa seria a verdadeira lição a respeito de onde vêm as boas ideias: “o acaso favorece as mentes conectadas”!
......O vídeo abaixo, um verdadeiro trailer deste livro, é por si só um atrativo, em particular pela animação com que, em minutos, desenvolve a complexa, ainda que translúcida, teia de relações que sustentam a tese de Johnson.

Acesse aqui a entrevista de Steven Johnson em O Globo (14/nov./10)

18 de março de 2011

'Dores da Colômbia', a angústia de Botero frente à violência do seu país

A obra satírica do artista plástico colombiano Fernando Botero, reconhecido por pintar figuras corpulentas e roliças desdenhando de estereótipos da sensualidade em vigor, possui outro lado menos conhecido, no qual vê-se reforçada sua angústia criativa: a violência da história do seu país. A exposição Dores da Colômbia, em São Paulo (Centro Cultural Caixa Econômica, Pça. da Sé, 111, de 15/mar. a 1.o/maio, de 3.a a domingo, das 9h às 21h, entrada franca, 11 3121-4400), revela o que o artista de 78 anos chamou de “um testemunho da irracional história colombiana”.

Mesmo sendo declaradamente “contra a arte como forma de combate”, diante do drama que afetou a Colômbia Botero afirma ter sentido obrigação “de deixar um registro sobre o momento irracional de nossa história". Assim, são 36 desenhos, 25 pinturas a óleo e seis aquarelas nos quais o artista, conhecido por suas gordinhas e gordinhos erotizados, faz-se testemunha de um período histórico profundamente turbulento da Colômbia.

Una Madre, Fernando Botero, 1999, óleo sobre tela.

17 de março de 2011

Flores do deserto contra mutilações femininas

Enquanto no Ocidente as mulheres avançam na conquista de seus direitos civis -- embora haja ainda um longo caminho a ser percorrido até a igualdade com os homens --, no Oriente a secular discriminação de gênero continua a se justificar nos territórios da tradição, da cultura e da religião para se traduzir, não raro, em torturas, punições horrendas e execuções públicas contra o sexo feminino.
......Mesmo as recentes revoltas populares que hoje alteram o cenário político no Oriente Médio e na África não garantem às mulheres nenhuma certeza de que passarão de simples “mercadorias de troca”, como têm sido há séculos, à condição de cidadãs participantes na construção de sociedades livres. Ativas nessas manifestações e levantes contra os ditadores do mundo árabe, o desafio delas agora é fazer valer a sua real contribuição nesses episódios para alcançar progressos significativos na condição feminina daqui para frente nesses países.
......Tão importantes quanto a queda dos ditadores e a construção de nações respeitosas dos direitos de sua população são as mudanças nas tradições arcaicas de submissão, subserviência e opressão feminina. E para fazer valer esse novo código de conduta, duas mulheres, cada qual a seu modo, enfrentaram humilhações e continuam superando pressões e censura para fazer valer o seu desejo de dignidade e independência.

......Uma delas é a psiquiatra e escritora egípcia Nawal El Saadawi, ex-exilada política que, além de feminista histórica, inspirou com suas ideias o movimento que levou à queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro passado. A perseguição política à Nawal teve início nos anos 70, quando ela publicou Mulheres e Sexo, contando os problemas decorrentes da mutilação genital que sofreu quando era uma menina de 6 anos. O livro foi retirado de circulação e proibido durante duas décadas no Egito. Depois disso, por conta de sua militância contra o fanatismo religioso, Nawal continuou perseguida, foi presa e processada pelos fundamentalistas por "trair" a religião muçulmana.
......Nawal também é autora de A Face Oculta de Eva (Global Editora, 2002), com depoimentos e entrevistas sobre a opressão vivida pelas mulheres nos países árabes. Hoje, aos 80 anos de idade, a ativista, que inclusive concorreu em 2005 à presidência do Egito contra Mubarak, permanece na luta pela liberdade política e pela inclusão social das mulheres egípcias. Para ela, “não existe democracia sem igualdade entre homens e mulheres”.
......A foto de Nawall (acima, sem crédito) é reproduzida do seu site, que, por sinal, traz a seguinte epígrafe: “Para as mulheres e os homens que escolhem e pagam o preço da liberdade, em vez de continuar pagando o preço da escravidão”.
......Outro ícone da luta contra a opressão feminina, dessa vez no continente africano, é a modelo, atriz e escritora somali Waris Dirie. Ela é a autora do best-seller internacional Flor do Deserto, publicado nos EUA em 1997 e com 11 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Autobiográfico, o livro conta como ela foi obrigada a se submeter à mutilação genital aos 5 anos.
......Aos 13, fugiu de um casamento forçado com um homem que tinha idade para ser seu avô e foi parar em Londres, onde trabalhou como faxineira no McDonald’s até ser descoberta por um grande fotógrafo, tornando-se então modelo e celebridade internacional.
......Em 2008, conseguiu ampliar a denúncia sobre a opressão contra as mulheres da África e do Oriente Médio, quando a sua história foi transportada para o filme Flor do Deserto (veja abaixo entrevista sobre ele), protagonizado por outra top model, a etíope Liya Kebede. A aterrorizadora cena da mutilação é recriada no filme com a intenção de alertar o público e poupar futuras gerações de mulheres.
......Embaixadora especial da ONU para a eliminação da mutilação genital feminina, Waris vive em Viena, onde preside a Desert Flower Foundation, que tem por objetivo eliminar do planeta esse violento ritual praticado diariamente, por muçulmanos e cristãos, em oito mil meninas.